
Tal pai, tal filho
O ritual começara ainda pela manhã. Assim que despertara, o pai lhe oferecera a camisa, que ostentou orgulhosamente durante o café. Entre uma mordida no pão com queijo e uma bebericada no leite morno, erguia os olhos buscando aprovação. Ainda assim, não tinha dúvidas de que aquelas listras vermelhas e pretas lhe caíam bem.
Filho do meio entre duas irmãs pouco esportistas, sofrera desde sempre com as investidas futebolísticas paternas – reza a lenda que, para evitar imprevistos, viera ao mundo ao som do hino do Flamengo, tocado no celular já na sala de parto. Afinal de contas, a linhagem de três gerações rubro-negras precisava ser mantida.
Não que desgostasse, longe disso. Talvez movido por aquela admiração que toda a criança tem pelo progenitor, quando bebê apenas sorria ao ser bombardeado por roupas, chocalhos, mamadeiras, chupetas e – pasmem! – fraldas estampando o escudo do clube. Há quem diga, inclusive, que balbuciara “fla” antes mesmo de mamãe ou papai (este, por sinal, confirmava veementemente a história).
O domingo tinha tudo para ser o dia mais feliz de sua curta vida. Aos nove anos, iria pela primeira vez ao maracanã. O pai, embora fanático, relutara em levá-lo ao estádio. Não só pela violência, diga-se de passagem, mas também pelo efeito catastrófico que uma derrota poderia gerar no filho. Uma vez que os pedidos eram cada vez mais insistentes, precisou ceder.
A escolha da partida foi um dilema esfíngico. Um adversário mais fraco oferecia menos risco (de tropeço e de conflitos), mas também menos apelo emocional. Por outro lado, vivenciar logo no batismo uma vitória épica marca a alma para não mais se esquecer. Acabou optando por um jogo contra o Botafogo. Além de ser o de menos rivalidade, a fase atravessada pelo Glorioso prenunciava uma conquista fácil – apesar da velha máxima de que “clássico é clássico”.
Passaram o início da tarde ensaiando os principais cânticos a serem entoados no decorrer do confronto. O uniforme completo (e atual, já que o garoto recebia uma nova leva todos os anos) aguardava ansioso sobre a cama, vestindo alguém imaginário. Conforme a grande hora se aproximava, o brilho nos olhos do garoto transparecia um arrebatamento incomensurável.
Com um par de horas de antecedência, deram-se as mãos e seguiram a pé pela rua Maxwell, onde moravam. A distância a ser percorrida era pequena, mas os cerca de vinte minutos pareciam séculos na percepção do menino. Já nas cercanias do Maracanã, ele observava atento a movimentação. A profusão de vermelho e preto pintava um quadro magnífico.
Passadas as roletas, o pai o colocou carinhosamente sobre os ombros. Enquanto subiam as rampas de acesso, lá do alto o garoto se sentia um rei. O rei. Ao ver pela primeira vez o gramado, tão de cima e bem do centro, em instantes a sensação mudou. Diante do Maior do Mundo ele era pequeno. Muito pequeno.
De novo no chão, esperou deslumbrado o espaço ser tomado por rubro-negros. Segundos antes do apito inicial, a proporção de flamenguistas era de sete ou oito para cada botafoguense. Nas arquibancadas, pelo menos, a supremacia estava garantida. Mas o futebol, assim como a vida, prega peças quando não se espera.
Aos quinze minutos, a pressão alvinegra era nítida e escancarada. Por enquanto, nada de tão grave, até porque o guri parecia pouco ligar para os lances, tamanha a alegria que o acometia. O esquete da Gávea era sabidamente melhor e haveria de se impor. Ledo engano. Terminado o primeiro tempo, a derrota parcial por
Cantante e confiante em uma virada que – se parecia impossível pelas circunstâncias de jogo – era plausível pelos resultados anteriores, a torcida parecia cega para o óbvio: não era dia de Flamengo. O pai, por experiência, demonstrava certa apreensão. Contudo, se acalmava no momento em que confirmava o fulgor no olhar de seu filho, intacto até então. Enquanto isso, os gatos pingados botafoguenses procuravam fazer sua festa particular, mas mal se faziam ouvir.
Começada a etapa derradeira, o panorama teimava em não se modificar. Quando o Botafogo marcou mais duas vezes em seqüência, o coração paterno se apertou. Pouco importava a goleada iminente, na verdade. O grande problema era que, ao ensaiar puxar o menino pelas mãos a fim de deixar o estádio, notou que ele não arredava o pé de forma alguma. Pior: sua intuição lhe dizia que algo se transformava naquele espírito infantil.
Findada a esperança, o silêncio imperava nos setores rubro-negros da arquibancada. Só se escutavam os gritos adversários que, agora, pareciam ter se multiplicado por mil. No sexto gol, o pai surpreendeu um esboço de sorriso pueril de canto de boca que feriria pra sempre o seu íntimo. Faltavam ainda dez minutos para o fim da partida, mas logo se viu arrastando o filho pelos braços com uma truculência que não condizia com o costumeiro temperamento sereno.
O menino, entretanto, não esboçou reação. Parecia inserido em uma catarse sem precedentes, intensa e ao mesmo tempo plácida. Fizeram o caminho de volta em uma ausência de ruídos constrangida. O pai, ofendido, lamentava a decisão tomada, sabendo que tal arrependimento o acompanharia até o fim dos dias. O filho, por perceber a tristeza de seu herói-mor, recriminava-se por se sentir incompreensivelmente iluminado. Ainda não sabia, mas tal luz vinha de um certo vermelho, aquele vermelho!, definitivamente pintado de branco.
P.S. Sem envolver Vasco da Gama, para ficar imparcial.








