terça-feira, 4 de agosto de 2009

Dos pseudo-contos pretensiosos, a Missão


Tal pai, tal filho


O ritual começara ainda pela manhã. Assim que despertara, o pai lhe oferecera a camisa, que ostentou orgulhosamente durante o café. Entre uma mordida no pão com queijo e uma bebericada no leite morno, erguia os olhos buscando aprovação. Ainda assim, não tinha dúvidas de que aquelas listras vermelhas e pretas lhe caíam bem.


Filho do meio entre duas irmãs pouco esportistas, sofrera desde sempre com as investidas futebolísticas paternas – reza a lenda que, para evitar imprevistos, viera ao mundo ao som do hino do Flamengo, tocado no celular já na sala de parto. Afinal de contas, a linhagem de três gerações rubro-negras precisava ser mantida.


Não que desgostasse, longe disso. Talvez movido por aquela admiração que toda a criança tem pelo progenitor, quando bebê apenas sorria ao ser bombardeado por roupas, chocalhos, mamadeiras, chupetas e – pasmem! – fraldas estampando o escudo do clube. Há quem diga, inclusive, que balbuciara “fla” antes mesmo de mamãe ou papai (este, por sinal, confirmava veementemente a história).


O domingo tinha tudo para ser o dia mais feliz de sua curta vida. Aos nove anos, iria pela primeira vez ao maracanã. O pai, embora fanático, relutara em levá-lo ao estádio. Não só pela violência, diga-se de passagem, mas também pelo efeito catastrófico que uma derrota poderia gerar no filho. Uma vez que os pedidos eram cada vez mais insistentes, precisou ceder.


A escolha da partida foi um dilema esfíngico. Um adversário mais fraco oferecia menos risco (de tropeço e de conflitos), mas também menos apelo emocional. Por outro lado, vivenciar logo no batismo uma vitória épica marca a alma para não mais se esquecer. Acabou optando por um jogo contra o Botafogo. Além de ser o de menos rivalidade, a fase atravessada pelo Glorioso prenunciava uma conquista fácil – apesar da velha máxima de que “clássico é clássico”.


Passaram o início da tarde ensaiando os principais cânticos a serem entoados no decorrer do confronto. O uniforme completo (e atual, já que o garoto recebia uma nova leva todos os anos) aguardava ansioso sobre a cama, vestindo alguém imaginário. Conforme a grande hora se aproximava, o brilho nos olhos do garoto transparecia um arrebatamento incomensurável.


Com um par de horas de antecedência, deram-se as mãos e seguiram a pé pela rua Maxwell, onde moravam. A distância a ser percorrida era pequena, mas os cerca de vinte minutos pareciam séculos na percepção do menino. Já nas cercanias do Maracanã, ele observava atento a movimentação. A profusão de vermelho e preto pintava um quadro magnífico.


Passadas as roletas, o pai o colocou carinhosamente sobre os ombros. Enquanto subiam as rampas de acesso, lá do alto o garoto se sentia um rei. O rei. Ao ver pela primeira vez o gramado, tão de cima e bem do centro, em instantes a sensação mudou. Diante do Maior do Mundo ele era pequeno. Muito pequeno.


De novo no chão, esperou deslumbrado o espaço ser tomado por rubro-negros. Segundos antes do apito inicial, a proporção de flamenguistas era de sete ou oito para cada botafoguense. Nas arquibancadas, pelo menos, a supremacia estava garantida. Mas o futebol, assim como a vida, prega peças quando não se espera.


Aos quinze minutos, a pressão alvinegra era nítida e escancarada. Por enquanto, nada de tão grave, até porque o guri parecia pouco ligar para os lances, tamanha a alegria que o acometia. O esquete da Gávea era sabidamente melhor e haveria de se impor. Ledo engano. Terminado o primeiro tempo, a derrota parcial por 2 a 0 fora pouco.


Cantante e confiante em uma virada que – se parecia impossível pelas circunstâncias de jogo – era plausível pelos resultados anteriores, a torcida parecia cega para o óbvio: não era dia de Flamengo. O pai, por experiência, demonstrava certa apreensão. Contudo, se acalmava no momento em que confirmava o fulgor no olhar de seu filho, intacto até então. Enquanto isso, os gatos pingados botafoguenses procuravam fazer sua festa particular, mas mal se faziam ouvir.


Começada a etapa derradeira, o panorama teimava em não se modificar. Quando o Botafogo marcou mais duas vezes em seqüência, o coração paterno se apertou. Pouco importava a goleada iminente, na verdade. O grande problema era que, ao ensaiar puxar o menino pelas mãos a fim de deixar o estádio, notou que ele não arredava o pé de forma alguma. Pior: sua intuição lhe dizia que algo se transformava naquele espírito infantil.


Findada a esperança, o silêncio imperava nos setores rubro-negros da arquibancada. Só se escutavam os gritos adversários que, agora, pareciam ter se multiplicado por mil. No sexto gol, o pai surpreendeu um esboço de sorriso pueril de canto de boca que feriria pra sempre o seu íntimo. Faltavam ainda dez minutos para o fim da partida, mas logo se viu arrastando o filho pelos braços com uma truculência que não condizia com o costumeiro temperamento sereno.


O menino, entretanto, não esboçou reação. Parecia inserido em uma catarse sem precedentes, intensa e ao mesmo tempo plácida. Fizeram o caminho de volta em uma ausência de ruídos constrangida. O pai, ofendido, lamentava a decisão tomada, sabendo que tal arrependimento o acompanharia até o fim dos dias. O filho, por perceber a tristeza de seu herói-mor, recriminava-se por se sentir incompreensivelmente iluminado. Ainda não sabia, mas tal luz vinha de um certo vermelho, aquele vermelho!, definitivamente pintado de branco.



P.S. Sem envolver Vasco da Gama, para ficar imparcial.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Das cartas abertas para ninguém

Apuração preguiçosa ou “preguiça” deliberada?

Minha mãe e meu padrasto, junto de alguns amigos, são voluntários em uma escola que atende crianças do Morro dos Macacos, na Tijuca. Há mais de um mês, uma atividade com moradores da região estava marcada para o último domingo, pela manhã. Além da distribuição de cestas básicas, o evento contaria com palestras variadas e atendimentos gratuitos em medicina alternativa. Até aí, nada demais – apenas mais um grupo pessoas tentando melhorar o mundo.


Ao receber minha mãe de volta para o tradicional almoço de domingo, qual não foi a minha surpresa quando ela veio me contar que a atividade, por pouco, não havia sido cancelada. O motivo? A comunidade estava em pânico e com medo de sair de casa após a morte de cinco moradores da comunidade em uma incursão da PM na noite anterior.


A história contada pelos moradores que se arriscaram a participar (descrita por TODOS eles, sem exceção) e confirmada pelos responsáveis pela escola era a seguinte: o tráfico atrasara o famoso arrego dos policiais. Em represália, os militares proibiram a realização de uma tradicional festa junina (veja bem, NADA de baile funk) que reúne os que vivem no local. Sim, é bem verdade que ela só é realizada com o apoio financeiro dos traficantes, mas se assim não fosse acho bastante difícil que existisse verba disponível para bancar a confraternização.


Mas prossigamos: apesar da proibição imposta, a festa junina acabou acontecendo. No meio dos festejos, uma quadrilha (conjunto de bandidos, e não grupo de dança) de policiais invadiu o morro usando e abusando da já costumeira truculência. O saldo final foi de cinco mortos (na verdade, dois corpos não foram encontrados, mas deduziu-se o óbvio). O pior é que, segundo nova afirmação unânime dos moradores, pelo menos dois dos falecidos não tinham RIGOROSAMENTE nada a ver com o tráfico.

Os fatos nefastos não param por aí. Embora a sociedade não tome conhecimento, mortes pelas mãos de policiais de maneira semelhante se transformaram em acontecimento corriqueiro no Morro dos Macacos. Às vezes, a média é de uma incursão por semana. Não se contabiliza corpos. Não se presta contas de tais ações.


A grande ironia é que, de acordo com uma líder da comunidade, existe uma torcida velada dos próprios moradores para que denúncias não aconteçam. Se algo é divulgado, seja pela imprensa ou até no disque-denúncia, a violência da próxima “batida” policial dobra. Se a polícia mata e causa medo, pra quem esses cidadãos vão apelar?


Na condição de futuro (e presente, de certa forma) jornalista, me perguntei por que nada daquilo tinha tido repercussão na mídia. Os dados não chegavam às redações? Não havia interesse em publicar? De todo modo, decidi aguardar até a edição de segunda-feira. Não me parecia concebível que a morte de CINCO pessoas em uma única ação policial, bandidas ou não, fosse passar incólume pelos meios de comunicação.


Hoje pela manhã, ao olhar a capa de ‘O Globo’, já senti o tom do que viria por aí. Sob a chamada “PM proíbe funk onde baile causa violência”, um pequeno texto anunciava uma nova medida de segurança adotada pelo Estado. Acerca do episódio no Morro dos Macacos, apenas uma menção afirmando que a polícia teria sido recebida a tiros e que a morte de três pessoas, além de outras seis feridas, teria sido ocasionada pelo confronto com os traficantes. Sem falar que, na ótica do jornal, quem causaria a violência seria o funk e não a própria ação policial. Mais apropriado impossível, pelo menos pra PM.


Por simples matemática, já se percebe que dois dos mortos contabilizados pelos próprios moradores ficaram pelo caminho. Na matéria, a manchete trazia um trocadilho bem bacana: “FUNK PROIBIDÃO”. Logo “O Globo”, que não é o “Meia-hora”, foi decidir por chamada bem-humorada em notícia que trata de morte? Banalização pouca é bobagem... Aliás, independente disso, é no mínimo revoltante que o assunto principal da notícia gire em torno da medida de segurança do Governo e não da morte em circunstâncias duvidosas de três seres humanos (nas contas divulgadas pelo jornal).


Quando uma bala perdida atinge alguém nas ruas da Zona Sul, o assunto reina absoluto nos quatro ventos. Se duvidar, dá até nota na CNN. Querendo ficar mais perto do Morro dos Macacos, é só lembrar da morte da menina Gabriela, também por bala perdida, nas ruas da Tijuca. A conclusão é óbvia e nem tão nova, por mais que ainda choque: se morre o pobre e favelado, então, ninguém liga. Preto sendo, melhor ainda.


No texto, em momento algum se questiona a forma como foi conduzida a ação policial ou é proposta uma análise um pouco mais crítica sobre a famigerada política de extermínio referendada – ao que tudo indica – pelo Sr. Sérgio Cabral. Para disfarçar a parcialidade escancarada, dá-se aspas a um morador do Morro dos Macacos já no fim da matéria, anunciando o caráter contínuo das execuções por parte da Polícia Militar.


Mas peraí... Mesmo com tal declaração o repórter não se preocupou em buscar mais informações sobre essas mortes? Porque os fatos narrados anteriormente no texto são contados e assumidos como verdade e não como versão da Polícia? E por qual motivo não se expõe com precisão também o que diz o outro lado da história? Afinal de contas, uma das premissas básicas do jornalismo é – ou deveria ser – uma tal de imparcialidade... Ou não?


Decerto, haverá quem diga que a variante narrada pelos policiais merece mais crédito do que as lorotas contadas por essa gentalha que, por mim, nem exisitiria. É mais confortável pensar assim. Contudo, pouco importa: se “o papel do jornal é informar”, como apregoa o slogan do mesmo jornal, é obrigação informar direito. Passa por isso, no mínimo, ouvir os dois lados de uma história.


Depois, não vamos reclamar por acabarem com a exigência do diploma...


Luã Marinatto

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dos pseudo-contos pretensiosos (ou "eu quero me enganar fingindo que atualizo essa joça")



Porquê odeio o alfabeto

Lá estávamos. Deitados lado a lado, os corpos nus formando dois ésses que quase se fundiam. Ela dormia e eu podia sentir perfeitamente a sua respiração: leve e ritmada, soprando uma brisa suave no braço um tanto quanto dormente que formava um aconchegante cê ao seu redor. O encaixe perfeito entre minha barriguinha saliente (sim, há quem diga que ando perigosamente parecido com um ó) e a sua concavidade dorsal me fazia refletir: brincará Deus de tetris com as figuras humanas que concebe? Metáfora besta, sobretudo se considerarmos meu tão conhecido ceticismo. Só que, venhamos e convenhamos, piores seriam os tradicionais clichês sobre caras-metades, almas-gêmeas e afins. “Você é a vogal do meu ditongo”, diria eu, caso quisesse mesmo parecer bem criativo.

Enquanto divagava, a mão livre passeava displicente por regiões já exploradas. Os dedos chegaram aos seios (um belo de um bê em caixa alta, com fonte arial black e tamanho 48), donde logo despontaram mamilos enrijecidos, como pequenos pingos de í. Talvez levada pela sopa de letrinhas, ela grunhiu uma onomatopéia ininteligível formada só por consoantes. E me chutou paro o lado. Ok, vá lá, o movimento até que se pareceu com um érre. Ou um cá. O fato é que se a vida fosse uma revistinha da Mônica, naquele instante vários zês plainariam teimosos sobre o ser que me agredia.

No entanto, como já dizia vovó, a insistência é a alma da vitória. Até porque há algum tempo eu já me metamorfoseara em quê (sou gordinho, lembrem-se), estágio esse praticamente irreversível. Em um instante, retornava decidido para o meu posto cativo e continuava a luta, trocando de alvo. Abri sutilmente suas pernas, que logo formaram um vê de ponta a cabeça. Tivesse a penugem por onde então eu deslizava o formato de um triângulo eqüilátero, poderia ser até um á maiúsculo.

Ela se contorceu bem de leve e ensaiou um bocejo animador. Jogou os braços para cima da cabeça – tal qual um ípsilon –, cruzou-os sob a nuca (agora parecia um tê) e de olhos semi-cerrados, disparou:

- Quero dormir, porra!

O ú sonoro que ecoou dentro de mim poderia ser de quase. Ou de vaia, você escolhe.



sábado, 30 de maio de 2009

Dos hipócritas, porém felizes


A hipocrisia é o grande mal do século XXI. Tá certo, ok, sei que o ser humano é hipócrita por natureza. Faz parte da existência terrena apregoar condutas e posturas que em nada condizem com nosso modus operandi. Ainda assim, me irrita perceber o quanto a cultura do contraditório encontra-se cada vez mais disseminada. Hipócrita também sou eu, aliás, que sumo por séculos e apareço nesse muquifo criticando a essência do homem na maior cara lavada. Mas vamos lá...

A idéia do post surgiu há dois meses, quando um bando de gente por aí louvava a tal “Hora do Planeta”. Uma turminha de amigos de panda decidiu que a grande solução para os problemas do mundo seria todos apagarem as luzes, juntos, por sessenta minutos. O que se consegue com isso, além de uma canela roxa por causa da topada na mesa de centro? Segundo os organizadores, a proposta era fazer um protesto em prol do meio-ambiente e contra a crítica situação climática global.

Não sou tão cético a ponto de achar que todos os que aderiram à causa são impostores, mas me pergunto se alguém realmente acha tal medida eficaz. “O que vale é chamar a atenção para a questão ambiental”, responder-me-ão. Então é essa a magnífica porta que se abre para o combalido planeta Terra? Uma hora de luz apagada em um sábado à noite (mas deixa a TV ligada, porque já vai começar o Zorra Total) e, BUM!, todos vão olhar para as árvores com muito mais carinho.

Agora, com tudo sob controle, o soldado – cansado depois da árdua tarefa de movimentar o dedinho pelo interruptor da sala – já pode pegar o carro na garagem e ir comprar pão na padaria. Que fica quase na esquina. A moça já pode tomar seu banho de três horas e usar seus cosméticos possivelmente testados em bichinhos bonitinhos sem se sentir culpada por querer estar bonita. A família calorenta já pode ligar o ar-condicionado no máximo e confabular sobre a vitória conquistada. E entupamos a casa de aparelhos eletroeletrônicos inúteis e consumidores de energia, que se tornam obsoletos da noite pro dia e vão para alguma pilha de sucata lowtech bem distante dos nossos olhos.

Admito, também não sou uma pessoa consciente, mas pelo menos não finjo ser. Ás vezes jogo lixo na rua, não ajudo em coletas seletivas, uso uma sacola plástica dentro da outra quando saio do mercado e canso de esquecer torneiras abertas, atitudes reconhecidamente lamentáveis. Só que, me perdoem, não vou me meter em iniciativas paliativas cujo único propósito é amaciar a minha culpa e fazer com que eu me sinta menos monstruoso. Na prática, o principal efeito desse tipo de ação é exatamente o oposto do pretendido: desviar o foco das questões mais básicas (a maior parte delas vem de cima, bem de cima) e alienar pessoas, que se embrenham por esse meio e deixam de refletir sobre pontos de fato relevantes.

O mais engraçado é que as grandes corporações, tolas que não são, aproveitam para explorar o filão do mercado que tem complexo de super-herói. Cinismo puro. E tome Bradesco, com lucro anual bilionário e investindo qualquer troco de bala para se auto-proclamar o Banco do Planeta. E tome Rede Globo, pedindo o seu dinheirinho de cotidiano suado e batalhado para o Criança Esperança, enquanto os descendentes de Marinho resfolegam em seus troninhos dourados. E tome Mc Donald’s, com todos os seus snacks venenosos, fazendo campanha de arrecadação de fundos para pequenos cancerígenos no Mc Dia Feliz. Feliz, mesmo, só o Departamento de Marketing, que agrega um valor mais do que inexistente à marca dessas empresas. O pior de tudo é que ainda há quem caia nesses contos da carochinha...

Poucos dias depois da tal “Hora do Planeta”, ativistas do Greenpeace subiram de rapel a Ponte Rio-Niterói para mandar um recado aos principais líderes mundiais, então reunidos para a reunião do G20, em... Londres. Não me perguntem porque não escalaram a Tower Bridge ou atrasaram os malditos ponteiros do Big Ben... Também não sei. O fato é que quando uma das instituições “verdes” mais famosas do planeta faz uma ação em via expressa em horário de puta movimento e causa um engarrafamento quilométrico, é sinal de que os tempos andam mesmo nebulosos. Ou ninguém parou pra pensar no total de gás carbônico extra lançado na atmosfera por conta do trânsito quase parado?

É, amigo, o último a sair apague a luz. Mas só por uma hora...

sábado, 7 de março de 2009

Das genialidades incompreendidas (ou "eu não sou nem um pouco humilde, mas foda-se")


Minha culpa, minha máxima culpa

Bem...
Tô uma vez morta!
Sou carne e pecados,
e ardo.

Bem...
Tô duas vezes morta!
Sou uma gorda ostentando ouro,
hipócrita.

Bem...
Tô três vezes morta!
Sou um corpo esquálido,
aidético.

Bem...
Tô quatro vezes morta!
Sou um livro queimado para sempre,
perdido.

Bem...
Tô cinco vezes morta!
Sou uma alma errando pelo vale dos suicidas,
louca.

Bem...
Tô seis vezes morta!
Sou velha e antiquada,
enferma.

Bem...
Tô sete vezes morta!
Sou um padre sem sexo,
pedófilo.

Bem...
Tô oito vezes morta!
Sou um bebê-relâmpago,
acéfalo.

Bem...
Tô nove vezes morta!
Sou rica e mentirosa,
profana.

Bem...
Tô dez vezes morta!
Sou uma virgem vestida de branco,
frustrada.

Bem...
Tô onze vezes morta!
Sou uma bruxa carbonizando na fogueira,
incinerada.

Bem...
Tô doze vezes morta!
Sou uma mãe estuprada,
prenha.

Bem...
Tô treze vezes morta!
Sou uma aleijada à beira do precipício,
cega.

Bem...
Tô catorze vezes morta!
Sou uma política desonesta,
corrupta.

Bem...
Tô quinze vezes morta!
Sou cadáver se decompondo,
aos vermes.

Bem...
Tô dezesseis
vezes morta!
Morta,
morta.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Do show de horrores

Uma menina de 9 anos é estuprada pelo próprio padrasto e engravida de gêmeos. A decisão, óbvia e respaldada pela justiça, é pelo aborto. Não é preciso ser muito esperto para perceber que a criança não teria estrutura física nem tampouco emocional para suportar a gravidez. Contudo, ainda assim, o arcebispo de Recife tentou interceder a favor dos fetos, alegando que devemos sempre “salvar vidas”. O religioso foi além e lembrou que o aborto é crime diante de Deus, passível de excomunhão.

Que se foda o resto da vida da menina, então? Coitada dessa pessoinha... Vai ter que conviver eternamente com o trauma e, agora, vai também arder para todo o sempre no mármore do inferno! Numa boa, com todo o respeito aos católicos, mas existem certos momentos em que me dá uma vontade louca de mandar a Igreja pegar o crucifixo e enfiar naquele lugar, numa paródia hilariante de “O Exorcista”... Se era pra falar merda tamanha, bem melhor seria não ter se manifestado.

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Parece que tá virando moda na política brasileira não declarar castelos, mansões e afins. O último “espertinho” foi Agaciel Maia, diretor-geral do Senado – função administrativa exercida por servidor, e não por membros da Casa. Ocupante do cargo desde 1995, Agaciel já foi investigado outras vezes, tendo sido inclusive acusado pela Polícia Federal de adulterar informações de computadores em determinada ocasião. O funcionário é dono de uma humilde residência no valor de modestos R$5 milhões, por mera coincidência registrada no nome do irmão. Revoltado com a injustiça, o diretor-geral apresentou carta de demissão prontamente aceita por José Sarney. Achei um absurdo... Afinal de contas, poucas pessoas se adequariam tão bem a um posto no Senado. Dizem até que, após tanta convivência, algumas das práticas de Agaciel foram apreendidas por osmose...

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Pauta do ‘Jornal Hoje’, agora à pouco: durante o verão, aumenta consideravelmente a venda de... ventiladores! Incrível, se eles não me avisam eu morria sem saber. Tá certo que o noticioso é mesmo um lixo – ninguém merece os dois apresentadores fingindo que batem papo e tratando o telespectador feito um cãozinho labrador –, mas esse tipo de coisa me dá vergonha da profissão que escolhi seguir... Sorte que é o que eu amo, e que nem todo mundo age feito um boçal.

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Enquanto isso, o mesmo ‘Jornal Hoje’ passava batido sobre uma das maiores vergonhas da política brasileira nos últimos tempos (olha que a concorrência é absurdamente grande): a manobra política para que a família Sarney voltasse ao poder no Maranhão. O governador eleito Jackson Lago (PDT) perdeu o mandato após julgamento do TSE, o vice não pôde assumir em seu lugar e o cargo caiu no colo da candidata que chegou em segundo lugar nas últimas eleições... Não por acaso, Roseana Sarney. Lamentável, eu sei, mas vem por aí um post esmiuçando o assunto no blog Nada Original, do amigo Filipe e linkado aí do lado... Aguardem.

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E eu que achei que o surto de sujeiras homéricas no Senado tinha parado, ao menos por ora, com a escolha do Sarney para presidente... Complementando o acordo que elevou o menos ilustre membro da Academia Brasileira de Letras (não importam o que digam, me recuso a lê-lo) à condição de comandante-supremo da Casa (será mesmo coincidência a supracitada decisão favorecendo a filha do Zézinho?), o famigerado Fernando Collor de Melo (PTB) foi nomeado presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado.

Além de demonstrar ainda mais o racha entre PMDB e PT – que defendia a candidatura da petista (nem tão melhor assim) Ideli Salvatti –, a escolha ultraja a memória do brasileiro. Até admito que o Collor provavelmente não é o pior político do mundo dos políticos corruptos, mas alçá-lo a um cargo de destaque representa um puta retrocesso, sobretudo se observarmos a atuação por trás do panos de Renan Calheiros e do próprio Sarney durante todo o processo... Pelo menos, vá lá, o Collor não foi escolhido para presidir a Comissão de Ética.

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Pensamento do dia: o Governo Lula tá é arrumando Sarney para se coçar...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Das boiolagens e ignorâncias

O cara é político. Até aí, ok, pode ser qualquer um. Ele também é gay. Clodovil? Kassab? Não, nenhum dos dois. Na verdade, é político, gay e fuma maconha... Pronto, matei, é o Gabeira, claro! Tampouco se trata do prefeito moral do Rio de Janeiro... O post em questão falará sobre a vida e a trajetória política de Harvey Milk.

Admito meu crime. Conhecia muitíssimo pouco sobre Milk (aliás, um cara com esse nome só podia ser viado mesmo) até assistir ao filme “Harvey Milk – A Voz da Igualdade” hoje à tarde. Primeiro, é preciso salientar que o longa é excepcional. A história é contada com primazia e prende o espectador do princípio ao fim. Emociona, sem ser piegas. O Oscar para o Sean Penn, então, nem se fala: merecidíssimo. Atuação sublime, sem dúvida dentre as melhores que eu já vi.

Contudo, não pretendo falar sobre cinema, ou muito menos estragar o bom roteiro do filme contando alguma parte surpreendente (tá, eu sei que é uma história real e que todo mundo já sabe que a bichinha vai morrer no final, mas de qualquer forma). Só queria, mesmo, comparar o funcionar da engrenagem política americana com a da brasileira. Que eu me lembre, o único “político” nacional de mínima relevância assumidamente homossexual é o Clodovil (por isso as aspas, muitas aspas). Desconsideremos o Gabeira, que embora dê pinta e use tanguinha de onça enfiada na bunda, já foi até casado. Seu pecado capital, até onde se comprove, é defender de fato direitos civis para as minorias.

Pois então, vejamos... O Brasil é um dos países com maior comunidade homossexual do mundo, não à toa um milhão de pessoas vão às ruas na Parada Gay de SP, por exemplo. Clodovil é o primeiro deputado federal que assumidamente gosta de dar ré no quibe (embora todo dia eu também mande um ou outro tomar naquele lugar), eleito com a terceira maior votação na própria capital paulista. Logo, pressupõe-se que a parcela gay dos eleitores deva ter sido decisiva no pleito, certo? Errado – ou, pelo menos, eu duvido. Quem vota em Clô é aquela dona-de-casa fissurada em programas vespertinos e que acha o cara a personificação de toda e qualquer inteligência (há!). Não fosse ele o candidato, eleger-se-iam a Sonia Abraão ou o Leão Lobo. Quem sabe até o Louro José, algo não tão surpreendente em terras onde já se escolheu até Macaco Tião (melhor que muitos outros por aí, sem dúvida).

O ponto a que eu quero chegar é o seguinte. Nos States, ainda na década de 70, uma biba macha pra caralho conseguiu articular toda a comunidade gay de São Francisco para enfim conseguir se eleger, à despeito de toda a perseguição sofrida e de algo como uma nova caça às bruxas (ou bichas) rolando solta por lá. No Brasil, em pleno século XXI, o único homossexual foi escolhido baseado em uma campanha desprovida de plataforma minimamente razoável e sem levantar nada que pudesse se parecer com uma bandeira contra a discriminação. Vai ver nem é preconceito do povo, ok... Deve ser só medo de não poder mandar o cara ir dar a bunda bem gostoso depois – algo como não votar no indivíduo porque a mãe já foi mulher da vida, ou porque ele é filho da Rita Cadilac, sei lá.

Só pra deixar claro, minha crítica – apesar de alguns termos ofensivos, mas se alguém reclamar é viadagem – não é aos gays em si, mas ao eleitorado brasileiro como um todo. Incapaz de se articular, de pensar direito, de pesar propostas, de refletir sobre sua própria realidade. A onda verde pró-Gabeira nas últimas eleições municipais foi até meio bacana, tá certo, mas continuo achando que ela não passou de um suspiro pseudo-engajadinho da Zona Sul e dos intelectuais megalomaníacos. De qualquer forma, a votação foi decidida graças a uma declaração de Gabeira retirada totalmente de contexto e veiculada na mídia, que acabou se transformando no hino da campanha de Eduardo Paes (que, tal qual o governador-padrinho Sérgio Cabral, entende muito mais de guerra e extermínio, isso sim). Prova inconteste da incapacidade de boa parte da população de matutar com discernimento. Enquanto isso, tome total absurdo de votos para Clodovis, Enéases e afins.

Por fim, antes que os defensores de que os Estados Unidos da América são o capeta encarnado venham comer meu fígado (vão se fuder, aliás, porque ele deve estar radioativo depois do carnaval), não acho eu tampouco que os votantes de lá são pequenos gênios ou que a política dos yankes é um poço de candura. Muito pelo contrário, para ser bem preciso. A intenção foi só usar o caso do tal do Harvey Milk como parâmetro pra elucubrar sobre nossa própria realidade. Aliás, em tempo: será que chorar – ainda que de leve – em um filme de viado, que mostra homem se pegando, fornicando, etc. me faz um deles? Socoooorro, mona! (Pelo menos eu estava muito bem acompanhado... E de mulher, juro!)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Dos decassílabos e entrelaçadas

Soneto do amor fugaz

Metade dela precisa de abraços

E sem teu carinho não sobrevive

Diz logo que te adora, e inclusive

De imediato ata alguns sólidos laços


Metade dela vai por tortos traços

Pois se angustia quando não se vê livre

E a juntar novas almas ela vive

Enquanto num piscar troca de braços


E lá vamos nós engolindo o pranto

Já aguardando o tal fim determinado

Que ainda assim nos surpreende, entretanto


Mas deixemos a injustiça de lado

Ela sempre avisa sobre seus encantos

Nós é que entendemos tudo errado

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Dos contos de fada


Imagine um castelo suntuoso. Com torres, fontes naturais, pinheiros, espelhos d’água e tudo que se tem direito. Ao redor, uma paisagem repleta de verde e de lagos cristalinos. Pensou em tempos medievais? Em conto de fadas? Bom, se você trocar a madrasta malvada das histórias infantis pelo novo corregedor da câmara de deputados, Edmar Moreira, ok. Caso contrário, companheiro, passastes longe.

O ilustríssimo deputado federal Edmar (DEM-BA) é dono do Castelo Monalisa, localizado na Zona da Mata Mineira. A propriedade tem torres de até 8 andares, 36 suítes com hidromassagem (a principal com 110 metros quadrados), 18 salas, adega de vinhos com capacidade para 8 mil garrafas, lagos para pesca, campo de golfe, piscinas (com cascatas artificiais), sauna e, pasmen!, 275 janelas. Haja vista pra se admirar! Para se ter uma idéia, a construção é maior que o Castelo de Neuschwanstein, nos Alpes da Baviera. Não conhece? Se você viu ‘Cinderela’, já dá pra visualizar... Foi o Neuschwanstein que inspirou o castelo do desenho da Disney.

Como de praxe, não pára por aí. Na declaração de bens do deputado com complexo de Rapunzel consta apenas uma pequena propriedade próxima ao local no valor de R$ 17,5 mil. Segundo o próprio, o tal castelo estaria no nome de seus dois filhos. Um deles, o também deputado Leonardo Moreira, declarou ao TRE um terreno na mesma região avaliado em cerca de R$ 3 milhões. Mistério desfeito? Que nada... De acordo com corretores que há 10 anos tentam vender a propriedade (na propaganda, em 3 idiomas, a construção é descrita como “um conjunto arquitetônico inspirado em castelos europeus”), seu valor estipulado varia entre 20 e 25 milhões de reais.

Não por acaso, na cerimônia de posse como Corregedor, Edmar Borralheira – ops, Moreira – já disse que não pretende investigar os colegas de batente. O motivo? “Deputados têm o vício da amizade”. O deputado companheirão já declarou, inclusive, ser a favor do fim de julgamentos de parlamentares pelo Conselho de Ética. Ética essa, aliás, que mora em um reino muito distante do castelo de Edmar. Em seus quase 20 anos de política, Edmar Moreira tentou duas vezes emplacar um projeto de lei que privatizaria o serviço de segurança em presídios. Agora adivinhe você qual a área de atuação das duas empresas do Edmarzinho? Isso mesmo, segurança privada.

Tenho uma sugestão: trancafiemos Edmar Moreira na torre mais alta do Castelo Monalisa. E que fique por lá, esperando um improvável príncipe encantado.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Do Tio Sam, de frigideira, em uma batucada brasileira


A notícia já não é tão nova, mas tá valendo.

Enquanto os recônditos mais remotos do planeta entoavam cânticos de “Obama, Obama nas alturas!”, um senhor de nome esquisito tentava mexer seus pauzinhos podres para levar vantagens com a eleição do super-hiper-ultra-pop Barack (Shup, pros íntimos). Rod Blagojevich, então governador do estado de Illinois e – a julgar pelo nome e pelas práticas – mafioso russo nas horas vagas, exigia uma mamadinha nas tetas de alguém para indicar o substituto de Shup no senado americano (vale lembrar que a nomeação de um novo senador pelo governador está prevista na constituição estadunidense). Blago, como o dito cujo é carinhosamente conhecido, foi flagrado em escutas telefônicas requerendo favores variados em troca de sua escolha. O Brasil pode até ser a grampolândia, como alguns apregoam, mas parece que por lá o recurso também é (bem) utilizado pelo FBI.

Blagojevich e seu capanga – digo, chefe de gabinete – foram mantidos em prisão domiciliar por cerca de 24 horas em dezembro, sob (óbvia) acusação de corrupção. Lá como cá, a detenção não durou muito tempo (quem será o Gilmar Mendes das terras do Tio Sam?) Nas gravações divulgadas pela polícia, Blago aparece inclusive fazendo comentários nada publicáveis sobre a pobre mãe de Shup, a metade branca de Obama (há quem diga, até, que crime muito mais grave do que a prevaricação foi ofender a alma imaculada do BO).

Rod, que inevitavelmente me faz lembrar do saudoso Roberto Jefferson – e não é só pelo topete e os quilinhos sobressalentes destacados no colarinho da camisa engomada –, parece mesmo ter feito um intensivão com os políticos tupiniquins: negou, negou e negou, sob as alegações mais estapafúrdias. Para ele, as conversas gravadas não constituíam nenhum crime, mas sim uma prática comum no jogo político americano. Talvez até seja, vá lá, sobretudo quando pensamos nos nossos exemplos caseiros, só que Blaguinho ultrapassou qualquer limite do razoável. “Mas o que é que eu fiz de errado?”, chegou a bradar o injustiçado apreciador de um bom óleo de peroba.

No entanto, parece que a sociedade americana, tradicionalmente consumidora de refeições gordurosas e pouquíssimo saudáveis, não morre de amores por pizza. No último dia 29, Blago teve seu mandato cassado pelo senado americano em votação unânime. O ex-governador sai do cenário político norte-americano pela porta dos fundos, com a proeza de ser o primeiro mandatário do estado de Illinois a ser deposto.

Enquanto isso, na nossa pátria amada, senadores com mais rabo preso do que minha vó com prisão de ventre fazem questão de não cassar figuras como Renan Calheiros, acusado de envolvimento com lobistas em 2007. Triste, muito triste.